BTS e Chris Brown: uma crítica à hipocrisia do homem aliado
J-Hope e RM, membros do maior grupo de K-Pop da história, se tornaram o exemplo perfeito do porquê não devemos separar um artista de sua obra
BTS e Chris Brown: uma crítica à hipocrisia do homem aliado
J-Hope e RM, membros do maior grupo de K-Pop da história, se tornaram o exemplo perfeito do porquê não devemos separar um artista de sua obra
Por Luanna Mendes | 08/09/2026
J-Hope, Chris Brown e RM posando juntos após show do cantor americano. (Foto: Reprodução/@chrisbrownofficial)
“Você está arrasando, garota. Você chegou aqui em uma Lamborghini. Tudo isso sem um homem. Você está arrasando” é o que diz a música Killin’ It Girl, do J-Hope, do BTS. A música é descolada e dançante, cuja letra destaca o poder e a beleza de uma mulher independente. É uma pena que o membro do maior grupo de K-Pop da atualidade cante esta canção durante o dia, e à noite vá em um show do Chris Brown. Porque, ou você canta uma música que celebra o empoderamento feminino, ou você vai ao show de um agressor de mulheres. Não dá para fazer as duas coisas e não querer ser chamado de hipócrita.
Infelizmente, foi essa a situação protagonizada por J-Hope e seu companheiro de grupo, RM, no dia 13 de agosto de 2026. Os dois, sem vergonha alguma, postaram em suas contas do Instagram o quanto estavam felizes e satisfeitos por irem a um show de Chris Brown, cantor americano que, em 2009, desfigurou o rosto da cantora Rihanna ao espancá-la durante uma discussão de namorados. Brown chegou a ser preso, mas logo fez um acordo judicial e recebeu liberdade condicional. Afinal, ele apenas bateu em uma mulher. Não é um crime tão grave, certo? Errado.
De acordo com a Organização das Nações Unidas (ONU), por ano, aproximadamente 50 mil pessoas do sexo feminino são mortas por parceiros ou familiares no mundo todo – isso equivale a uma morte a cada 10 minutos, o que resulta em 137 mortes por dia. Todos os dias, mulheres ao redor do mundo lutam contra homens como Chris Brown, que usam covardemente de sua força física porque não possuem sabedoria para dialogar.
Motivos como os citados acima já deveriam bastar para que as pessoas não consumissem nada produzido por Chris Brown. No mundo real, os números são deprimentes: apenas no Spotify, o cantor possui mais de 58 milhões de ouvintes mensais. Essa quantidade equivale à população inteira de países como a África do Sul e Itália. Agora, sabemos que o J-Hope e o RM devem estar entre esses ouvintes, mesmo com toda a agenda feminista e antiviolência propagada por eles em suas carreiras. Mas, afinal, por que eles não podem simplesmente consumir a música que quiserem?
Uns dos maiores e mais influentes artistas existentes, todos os integrantes do BTS já têm idade suficiente para entender o seu papel na sociedade. Para fazer com que seus fãs esgotem a roupa de uma marca, por exemplo, eles não precisam de muito além de aparecer usando uma peça – e isso já demonstra o enorme poder de influência que eles têm. Da mesma forma, eles deveriam ter o discernimento de que não é de bom tom aparecer publicamente apoiando um homem que já agrediu de forma brutal a própria namorada, como o Chris Brown.
O BTS, como personalidade global, deveria ter a consciência de que, ao fazer algo do tipo, eles não estão sendo uma boa influência, não só para o seu público, mas para o resto da sociedade também – porque nada de bom sai de alguém que tem a coragem de espancar uma mulher. E, neste caso, não podemos nem mesmo dizer que não existe ali uma relação de admiração – não fosse por isso, aquela foto nem teria acontecido, e muito menos sido postada.
Agora, nos resta questionar: por que é tão fácil continuar gostando de um artista que, como se não bastasse o histórico de agressões, também objetifica mulheres para multidões em seus shows no presente? Por que é tão fácil, principalmente para outros homens, passar pano para esses tipos de situações? Não é como se não desse para sobreviver sem as músicas do Chris Brown. Na verdade, é justamente o contrário, uma vez que existem milhares de músicas melhores por aí, feitas por artistas que não precisaram espancar a namorada famosa para fazer sucesso, e que jamais se orgulhariam disso.